A Jornada do Herói

Hoje, vivemos um momento de grande ascensão da assim chamada literatura infanto-juvenil. Com isso, somos constantemente apresentados a novos jovens heróis, como o bruxo Harry Potter, o semideus Percy Jackson, o gênio do crime Artemis Fowl e o cavaleiro de dragões Eragon Bromsson.

Harry Potter

A curiosidade dos fãs dessas séries os chama, também, a ler antigos clássicos que muito se assemelham às novidades da literatura do século XXI.

Alguns buscam as aventuras da Mitologia Grega, as lendas do rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, e alguns se voltam para literatura do início do século passado, representada principalmente por J. R. R. Tolkien, em O Senhor dos Anéis, e C. S. Lewis, em As Crônicas de Nárnia.

Porque as pessoas, independentemente de sua idade, sexo, origem e classe social, buscam esses heróis? O que os torna atemporais? O estudioso norte-americano David Leeming (2003) responde que:

“Individual e culturalmente, e também como espécie, perguntamo-nos sobre nossas origens, sobre a importância de nosso momento atual, e pensamos continuamente no futuro. Temos sempre consciência do caráter de jornada de nossa vida. É por isso que os adultos sempre contaram histórias às crianças para descrever essa jornada, e os líderes também as contam a seus povos pelas mesmas razões.” (p. 10)

Em um diálogo entre o herói Percy Jackson e seu mestre, o centauro Quíron, Rick Riordan(2009) expõe a sua resposta. Segundo ele, o herói

Percy Jackson

“transporta as esperanças da humanidade para a esfera do eterno. Os monstros nunca morrem. Eles renascem do caos e do barbarismo que sempre fermentam embaixo da civilização, o próprio material que torna Cronos mais forte. Precisam ser derrotados de novo, e de novo, mantidos encurralados. Os heróis personificam essa luta. Você enfrenta as batalhas que a humanidade precisa vencer, a cada geração, a fim de continuar sendo humana.” (p. 259-260)

Em 1949, o estudioso norte-americano Joseph Campbell publicou o livro O Herói de Mil Faces, no qual introduziu o termo monomito, ou “jornada do herói”. A “jornada” que Riordan e Leeming apresentam aos seus leitores fora explicada então de forma esquemática, que mostra que continuamos a nos identificar com esses heróis porque eles são, até certo ponto, parecidos.

O monomito está dividido em três partes: a partida, a iniciação e o retorno; estas partes estão subdivididas em doze estágios. Portanto, eles são:

    1. O Mundo Comum: no qual é apresentado o mundo em que o herói vive antes de sua história começar;
    2. O Chamado à Aventura: algo quebra a rotina do herói;
    3. A Recusa do Chamado: o herói se recusa a aceitar o chamado;
    4. O Auxílio Sobrenatural: o herói se encontra com um mentor, que o faz aceitar o chamado e o prepara;
    5. A Passagem pelo Primeiro Limiar: o herói abandona o seu mundo e passa para um mundo distinto, o que pode ocorrer por vontade própria ou ele pode ser obrigado;
    6. O Ventre da Baleia: o herói passa a viver no mundo especial e aprende sobre ele. Lá enfrenta desafios e inimigos, e recebe a ajuda de aliados.
    7. Aproximação: se aproxima o objetivo final da missão do herói;
    8. Provação Máxima: o momento de maior tensão e crise da aventura;
    9. Recompensa: como o nome diz, o herói tem êxito e conquista uma recompensa;
    10. Caminho de Volta: o herói retorna ao seu mundo comum;
    11. Ressurreição do Herói: neste momento, o herói tem que enfrentar uma nova provação ligada à morte, na qual ele terá que usar tudo que aprendeu;
    12. Regresso com o Elixir: é o fim da história, no qual o herói retorna ao seu mundo, mas transformado.

Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda

Albert P. Dahoui lembra que essa jornada nem sempre é apresentada da mesma forma, nem toda jornada precisa necessariamente responder a esse modelo e, mesmo as que respondem, nem sempre contém todas as etapas. Entretanto, percebemos algumas dessas fases em todas as histórias aqui citadas.

Harry Potter e Percy Jackson apresentam esse ciclo em cada um de seus respectivos livros e durante toda a aventura simultaneamente.

Os irmãos Pevensie, em O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa, tem uma jornada que só é concluída no último livro da série, A Última Batalha; ainda que a conclusão fuja um pouco do esquema de Campbell (não contarei para não estragar a surpresa de quem leu ainda).

Aragorn e Frodo, em O Senhor dos Anéis, devem desempenhar os papéis de heróis; cada um com o seu objetivo, cada um com a sua jornada. Entretanto, a mesma história.

E, por fim, os mitos gregos aos quais o próprio Campbell remete, e o ciclo arturiano.

Diferenças à parte, todos tratam a respeito de heróis que, como Riordan (2009) sabiamente descreveu, transportam “as esperanças da humanidade para a esfera do eterno” (p. 259).

Por fim, deixo meu vídeo sobre o Merlin e suas figuras hoje em dia, feito para a disciplina “História das Civilizações no Medievo” em 2010:

Link: 

Wikipédia

Fontes:

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Pensamento, 1995.

DAHOUI, Albert Paul. A Jornada do Herói. Disponível em: <http://www.roteirodecinema.com.br/manuais.htm&gt;.

LEEMING, David. Do Olimpo a Camelot: Um panorama da mitologia européia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

RIORDAN, Rick. O Mar de Monstros. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009.


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