Resenha: Crepúsculo

Crítica: Crepúsculo

Crepúsculo é uma série de livros que tem trazido enormes discussões na atualidade. E, para o espanto de muitos, adolescentes e jovens adultos, que cresceram lendo Harry Potter, As Crônicas de Nárnia e Senhor dos Anéis, dentre muitas outras séries de fantasia, são os maiores críticos.

Há algum tempo, eu venho sendo uma dessas pessoas. Há cerca de dois anos, fiz uma infeliz tentativa de ler o livro antes de ver os filmes (como tenho feito com todas as adaptações que busco conhecer). Acostumada com o humor algo sarcástico da autora Meg Cabot (O Diário da Princesa), Crepúsculo foi um choque para mim. Li metade do primeiro livro antes de me resignar ao fato que Stephenie Meyer não tem o mesmo talento que Cabot para criar protagonistas que, ao mesmo tempo, são excelentes narradores. Então, abandonei.

Entretanto, como o último filme está para ser lançado em pouco tempo, resolvi fazer uma nova tentativa de ler os livros, porque, como todo fã de Harry Potter, sei que os filmes raramente são tão bons quanto os livros. E também sei que alguns livros muitas vezes começam entediantes, mas ficam melhores no decorrer do enredo. Portanto, estou aqui para falar da série Crepúsculo após ler os quatro livros da série e assistir os primeiros quatro filmes, em uma tentativa de fazer uma crítica imparcial dos livros.

Crepúsculo começa com a mudança da jovem Bella Swan para a casa do pai, que vivia em Forks, uma cidade onde o sol apenas raramente aparecia. Logo que somos apresentados à Bella, percebemos o potencial de protagonista que ela possui: uma jovem adolescente com uma idéia imatura a respeito de como fazer o bem às pessoas que ela ama, mas com coragem e determinação para realizar grandes feitos. Portanto, nos é apresentada uma protagonista com um potencial de crescimento.

Muito bem. Em Forks, Bella se encontra pela primeira vez com Edward Cullen e seus irmãos. A jovem fica obcecada com a família e, muito especialmente, com o comportamento estranho de Edward. Eles lentamente se aproximam: Edward, incapaz de se afastar de Bella, e a garota, cada vez mais intrigada a respeito do rapaz. Eles acabam por descobrir que estão apaixonados um pelo outro e é nesse momento que Bella finalmente descobre a verdadeira identidade de Edward: ele é um vampiro.

Edward nos é apresentado sob o ponto de vista de Bella, portanto, é necessário perceber que é o ponto de vista de uma jovem adolescente apaixonada a respeito do seu namorado. Por isso, é possível perdoar alguns aspectos da descrição física e psicológica dele. Outro, nem tanto (por vezes, parece que a própria autora se apaixona pelo personagem que criou).

Há um terceiro personagem que vale a pena ser mencionado: Jacob. Bella o conhece como irmão de duas amigas de infância. Então, ele é um jovem, pertencente a comunidade indígena local, alegre que vive despreocupadamente. Em determinado momento, Bella se aproxima de Jacob, e é então que descobre a verdade a respeito dos lobisomens, um grupo de rapazes da tribo que podem se transformar livremente em lobos. Jacob se torna um deles e, do rapaz alegre e despreocupado, torna-se mais fechado e rancoroso.

Os quatro livros da série, narrados pela própria protagonista, contam a história de amor entre o triângulo amoroso: Jacob e Edward apaixonados pela protagonista. Com todos os problemas “naturais” e sobrenaturais que possam existir.

O primeiro grande problema é que Bella, com todo o seu potencial, não amadurece seu senso de justiça. Na realidade, ao longo da série, a protagonista parece regredir em termos de maturidade, na medida em que seu relacionamento com Edward vai se aprofundando. Portanto, a história vai ficando mais infantil e os ideais da Bella, os quais moldam suas atitudes, se tornam cada vez mais imaturos.

Corajosa e determinada – como era desde o início da série –, ela faz acontecer tudo que deseja. Os ideais e atitudes da Bella passam a envolver absolutamente todas as personagens que a cercam. Entretanto, como a personagem não evolui, o livro passa a se tornar enfadonho e, quando a imaturidade começa a envolver personagens adultos, que muitas vezes julgam a atitude dela incorreta, mas não tem força ou determinação para contê-la, isso se torna alarmante.

É chato perceber momentos em que o pai dela está certo e ela o trata como se fosse um ciumento, um chato. Típica adolescente, é compreensível que a protagonista se sinta assim. O que me incomoda de fato é que não se tenta passar a idéia de que a Bella está errada em pensar dessa forma.

O que nos leva ao segundo grande problema: Meyer parece se esquecer que escreve para pré-adolescentes e adolescentes, ela passa exatamente o ponto de vista da Bella sem se importar em dizer se ela está certa ou não.

O grande exemplo que gosto de dar é quando o Edward termina com ela. Bella pára de viver, ela se desliga do mundo e perde quase todos os amigos. Em momento algum, nos três livros que se seguem ao acontecimento, a autora mostra que a protagonista estava errada. Muito pelo contrário, ela mostra que foi uma atitude que não poderia ter sido evitada.

Qualquer jovem adulto maduro sabe que isso é ridículo, mas e os pré-adolescentes que estão começando a vida amorosa agora? A um público tão jovem, que está formando seu caráter e sua personalidade, será sensato mostrar tais ideais e deixá-los tirar as próprias conclusões?

Essa série carece dos belos ideais aos quais os fãs de Harry Potter estão acostumados, os poucos que se apresentam, como coragem e determinação, estão submetidos a um ideal maior: estar com a pessoa a qual você está predestinado, o príncipe encantado ou princesa encantada.

Portanto, voltando ao problema do enredo. Temos uma história contada por uma protagonista adolescente, que carece de um crescimento mental e psíquico ao longo da série e é cercada por um mundo de ideais ridículos. Não sei se preciso dizer que a história dela se tornou ridícula.

Entretanto, devo dizer que algumas coisas me surpreenderam. A primeira foi o Edward Cullen, que no filme é totalmente passivo na relação com a protagonista; sua falta de atitude nos leva a crer que ele não a quer. No livro, Edward é um pouco mais ativo, mas, o mais importante é que ele demonstra querer estar com a namorada humana.

Os personagens secundários, os demais membros da família Cullen e os lobisomens que mais aparecem (Jacob, Sam, Seth e Leah), tem uma história bastante interessante e são personagens muito bem feitos, mas não suficientemente trabalhados. Muitas vezes, fico pensando que, sob o ponto de vista de qualquer outro dos personagens, a história ficaria bem melhor. Inclusive, a melhor parte dos livros é narrada pelo Jacob.

Quero fechar essa crítica sugerindo a todos os jovens críticos que ainda não leram os livros que os leiam. Há muito de legal ali que os filmes não mostraram. E, por favor, ignorem os ideais ridículos de uma autora de quase quarenta anos de idade que ainda está vivendo a pré-adolescência.

Anúncios