Resenha: A Arma Escarlate

Hoje eu estou aqui para falar de um livro que venho ansiando ler há dois meses: A Arma Escarlate, de Renata Ventura. Finalmente, após alguma dificuldade de encontrá-lo nas livrarias locais, comprei. Li-o em dois dias.

Muito bem. A Arma Escarlate conta a história de um menino de treze anos de idade chamado Idá Aláàfin, de pseudônimo Hugo Escarlate. No ano de 1997, em meio a um tiroteio na favela em que mora, ele descobre que é um bruxo através de uma carta (entregue por um pombo) convidando-o para estudar na escola de bruxaria local. Jurado de morte pelos chefes do tráfico, o menino foge, rezando para que a carta seja verdadeira e o guie até a entrada do mundo secreto da magia.

Muitos vão se identificar certa semelhança com um famoso bruxinho inglês. De fato, elas são tantas que, logo no primeiro capítulo já fica muito claro que ocorre mais que uma inspiração. Antes mesmo do livro começar, Renata Ventura já esclarece:

Em uma entrevista com J.K. Rowling, autora da série Harry Potter, um fã norte-americano lhe perguntou se ela algum dia escreveria um livro sobre uma escola de bruxaria nos Estados Unidos. Ela respondeu que não, “… mas fique à vontade para escrever o seu”.

Sentindo-me autorizada pela própria Sra. Rowling, resolvi aceitar o desafio: Como seria uma escola de bruxaria no Brasil? Especificamente para este primeiro livro, como seria uma escola de bruxaria no Rio de Janeiro? (VENTURA, 2011)

Os fãs da série vão encontrar, no livro, muitas referências ao livro de J. K. Rowling. Os mais atentos vão notar que esse livro se passa exatamente quando Voldemort está no auge de seu poder, abrangendo o momento da morte do Dumbledore e o começo da caça pelas horcruxes. Há mais do que simples referências a esses fatos, mas não vou dizer muito para não estragar a surpresa.

Enfim, deixando Harry Potter de lado, vou falar um pouco sobre A Arma Escarlate.

Para um livro de fantasia, há uma preocupação excessiva em não pecar ao descrever a realidade do Rio de Janeiro no final da década de 1990. Há um encontro perfeito entre realidade e ficção que poucos autores de fantasia são capazes de criar.

A escola de magia (Nossa Senhora do Korkovado), pública, possui todos os problemas que são encontrados na maior parte das escolas brasileiras: pouca verba ou pouca vontade da direção (no caso o Conselho) em gastar a verba que tem contratando bons professores e melhorando a infra-estrutura do lugar. A personalidade de Hugo também é algo surpreendente realista, assim como a da maior parte dos personagens que o cercam.

Na minha opinião, o livro peca gravemente apenas em um sentido: a autora se preocupa tanto em retratar sotaques e gírias na fala das personagens que a leitura fica um pouco confusa para quem está distante da realidade carioca e mineira (que são os sotaques que mais aparecem). É claro que não impede a leitura, mas cria uma barreira para um leitor um pouco mais impaciente, o que, levando em conta que o livro é destinado a um público predominantemente infanto-juvenil, pode ser considerado um grave defeito.

Há algo mais que preciso dizer. O personagem Capí (apelido para Ítalo Twice Xavier) também me incomodou um pouco. Fã de Harry Potter, eu estou acostumada com personagens muito humanos, com características positivas e negativas. Capí me incomoda por não aparentar ter um equilíbrio dessas características: ele é um menino de dezesseis anos absolutamente responsável, inteligente e carismático, que, por mais provocado que seja, nunca entra em brigas. Parece-me demais para um adulto, muito mais para um jovem.

Mas, deixando os defeitos de lado, esse é um livro que merece ser lido. Renata Ventura fez um excelente trabalho ao transportar o universo da autora J. K. Rowling para o Brasil, inserindo-o na nossa realidade, que é tão distinta da inglesa. Ela também procura transmitir belos ideais, como o orgulho nacional, a não-violência e o combate às drogas e ao tráfico, ideais estes os quais as crianças e os adolescentes brasileiros parecem carecer. Na minha opinião, existem certos excessos, mas estes não são prejudiciais ao jovem leitor que está formando o seu caráter e também não tornam a leitura chata.

Sinceramente, eu adorei. É o livro adequado para todos os professores que querem despertar o interesse dos alunos para a leitura sem tirá-los da dura realidade brasileira, interessante para os fãs de Harry Potter que anseiam por mais um pedacinho do mundo bruxo e divertido o bastante para agradar adultos e crianças.